ColaboradoresPe. Ernesto

Um traço da beleza do rosto de Cristo

A Bíblia reserva a Javé o título de “Santo”: Deus é o ”Outro”, tão transcendente e tão longínquo que o homem não pode nem pensar em participar de sua vida. Diante de sua santidade (Gn 28,10 – 19,1 Sam 6,13 – 21; 2 Sam 6,1 – 10) o homem é tomado pelo temor e tremor (Ex 3,1 – 6; Gn 15,12).

A história do povo de Israel revela que Deus ama comunicar sua santidade ao homem (Is 12,6; 29,19-23; 30,11-15; 31,1-3), o qual se torna também “outro”, manifestando em sua vida cotidiana e, sobretudo, em seu culto, um comportamento diferente do de outros homens e povos (Lv 19,1-37; 21,1-23; Apc 4,1-11).

Para efetuar essa santidade o povo eleito tinha apenas práticas exteriores de purificação, como “lavar as mãos antes das refeições”(Mt 15,2), o evitar comer alimentos “impuros” (Gn 9,4; Dt 9,4; Jz 13,4).

Os profetas tomaram logo consciência da insuficiência de tais meios e ensinaram a “pureza de coração”, a única capaz de fazer o homem participante da vida de Deus (Is 6,1 – 7; SI 14; Ez 36,17-32; 1Pd 1,14-16).

Esta aspiração à santidade “em espírito e verdade” (Jo 4,23) se realiza no Cristo. Ele irradia a santidade de Deus; sobre ele repousa “o Espírito do Senhor“ (Lc 4,16); ele reivindica o título de “Santo” (Jo 3,1-15; 1Cor 3,16-17; Gl 5, 16-25; Rom 8,9-14).

Pela sua Encarnação santifica a humanidade (Jo 1,14) e, tornado “Senhor” pela sua ressurreição, transmite a sua santidade à Igreja, seu Corpo (Col 1,18), por meio do Espírito Santo, que traz ao homem a vida de Deus (Mt 13,24-30; 25,2; Cl 1,22; 2 Cor 1,12). A consciência desta dádiva era tão viva nos primeiros cristãos, que os membros da Igreja eram chamados de “os santos” (2Cor 11,12; Rom 15,26-31; Ef 3,5-8; 4,12), e a própria Igreja era chamada “comunhão dos santos”.

Assim, a santidade cristã é um dom do amor de Deus, que exige, porem, a resposta livre e generosa do homem à iniciativa divina. A Igreja nos comunica a sua santidade pela pregação da palavra, pois, ela é “o fundamento e a coluna da verdade” (1 Tm 3,15) e pelos seus sacramentos (Mt 28,11-20).

Os santos, assim, são o maior tesouro, que Cristo deixou à humanidade; são as obras-primas da graça de Deus. Como o Apóstolo Paulo eles afirmam: “É pela graça de Deus que sou aquilo que eu sou e a graça de Deus em mim não foi estéril (1Cor 15,10).

Eles trazem no coração as palavras do profeta Isaias: “Transbordo de alegria em Javé e me regozijo no meu Deus, porque ele me vestiu com as vestes da salvação, cobriu-me com o manto da justiça, como o noivo que se enfeita com o turbante e a noiva com suas jóias “(Is 61,10). Lucas coloca estas palavras na boca de Maria, a Mãe de Jesus, no Magnificat (Lc 1,46-55). Esta “veste de salvação”, este “manto da justiça”, estas “jóias” encontram a sua fonte em Jesus, o “Santo”, o crucificado, que o Pai, mesmo porque santo, glorificou (Fil 2, 9-11).

Todos os santos não são outra coisa que brotos, desabrochados sobre a cruz de Cristo; pérolas preciosas que enriquecem a sua coroa de espinhos; são o transbordar da graça de santidade de Cristo; são a manifestação concreta de que Jesus em toda a sua vida foi totalmente repleto do Espírito Santo e que a sua cruz é o ato supremo de amor, além do qual era impossível ir. Enfim, são a glória que o Pai concedeu ao seu Filho Jesus.

Manifestam em concreto de que a morte de Jesus foi uma vitória revestida de derrota; que sua ressurreição é fonte de vida plena para toda a humanidade e que a felicidade de Deus está em contemplar o rosto do seu Filho, cuja imagem se reflete na face de cada ser humano.

O Pai celeste, como criou o mundo com as suas duas mãos, o seu Verbo Eterno e o Espírito Santo, assim modela os seus santos, contemplando em cada um deles um traço da beleza do rosto de Cristo. Os Santos nos convencem de que a santidade é possível e está ao alcance de todos, pois, Deus nos criou com esta vocação e missão: ser no mundo sinais vivos de sua ternura e compaixão.

Os santos, enfim, são amigos de Deus pois viveram radicalmente o chamado de Cristo. Como um povo tem os seus heróis e os seus mártires, assim a Igreja é um povo que tem os seus campeões da fé e modelos de vida. Eles também são nossos poderosos intercessores à semelhança dos patriarcas e dos profetas, como demonstra toda a história bíblica e à semelhança do próprio Jesus, que “vive intercedendo por nós”, para que, nós também na fidelidade à graça de Deus, tornemos certa a nossa salvação.

Padre Enesto Ascione,
Paróquia de São José,
Santo Antônio do Descoberto-GO

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