Pe. Ernesto

A verdadeira idolatria

A pobreza voluntária e a castidade consagrada irromperam na história somente, com Cristo. Com Ele, de fato, surgiu o Reino de Deus, único a justificá-los. Ele inaugurou uma nova era, a da redenção, da “volta das criaturas para Deus”,

depois da criação, ou da “saída das criaturas de Deus”. O Reino cria uma alternativa, uma nova possibilidade no mundo: os bens terrenos e o próprio matrimônio deixam de ser a única instância, o valor único. Existe, agora, outra instância, que não anula as anteriores, mas as relativiza, fá-las aparecer por aquilo que são: realidades provisórias, destinadas a desaparecer no mundo novo.

Acontece o mesmo que para o conceito de Estado no campo político. O reino de César não é abolido, mas radicalmente relativizado pela presença contemporânea, na história, do Reino de Deus.

O Reino de Deus já está presente no mundo na pessoa e pregação de Jesus. É necessário não deixa-lo esvair-se, mas agarrá-lo, excluindo tudo o que lhe fizer obstáculo, inclusive, se for preciso, a mão e o olho (Mt 18,8). Em outras palavras, é possível começar a viver desde agora como se há de viver na situação definitiva do Reino, onde os bens terrenos não terão valor algum, mas Deus será “tudo em todos”.

A pobreza voluntária tem, assim, uma característica escatológica e profética, como a virgindade consagrada; anunciam, com efeito “os céus novos e a terra nova” (Apc 21,1). A pobreza é profética, porque com o desapego, dos bens terremos, ela proclama, silenciosa, mas eficazmente, que existe outro bem, bem mais seguro e pleno; lembra que a cena deste mundo é passageira; que não temos neste mundo moradia permanente, mas nossa pátria é o céu.

Afirma, enfim, o primazia do espirito sobre a matéria, do invisível sobre o visível e da eternidade sobre o tempo.

A melhor ilustração dessa motivação escatológica profética, temo-la nas parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa: “O Reino do céu é comparável a um tesouro, que estava escondido num campo e que um homem descobriu. Em sua alegria vai, põe à venda tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13,44).

Jesus não diz: “Um home vende todos os seus bens e se põe à procura de um tesouro”. Diz ao invés: “Aquele homem vendeu tudo porque tinha descoberto um tesouro”. A pobreza, como a virgindade, não se escolhe para encontrar o Reino, mas, porque o Reino foi descoberto. A pobreza não é um preço a ser pago pelo Reino; não é a causa de seu surgimento, mas, o efeito.

Quantos corações Jesus inflamou de amor à pobreza com essas duas simples imagens do tesouro e da pérola. Elas reaparecem continuamente na história das grandes conversões: “Eu já encontrara a pérola preciosa – diz Agostinho nas Confissões – e precisava vender tudo o que possuía para adquiri-las” (S. Agostinho, Confissões, 8,1-2).

São parábolas que, depois de ouvidas, têm o poder de não nos deixar tranquilos na nossa mediocridade; fazem entrever a “troca admirável”; nos impelem a tomar a “decisão do momento”, exercem um “fascínio singular” uma “atração” irresistível. Isso significa que, se ainda agora, entre nós, elas encontrassem um coração disposto a deixar-se “envolver” como um convite, dirigido pessoalmente a cada um de nós, por Jesus, poderiam facilmente, hoje mesmo, operar alguma dessas “conversões” de que falam os evangelhos e a história bi milenar da Igreja.

“O dinheiro abre qualquer porta” – ouvimos falar. “Sem dinheiro nada feito” – diz o mundo. “O dinheiro é tudo – dizem os materialistas. Uma das aspirações mais profundas do ser humano é o de ter, possuir, ganhar, acumular. Chamamos de felizardos quem dispõe de muitos bens materiais, pois, estes oferecem garantia, segurança, poder. Qual a atitude certa do discípulo de Cristo diante dos bens econômicos?

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