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Nada pode impedir que alguém se encontre com Deus

Minutos antes de o encontro começar, escuta-se o falatório das crianças e jovens, mas basta que a catequista os chame para a oração do Pai-Nosso e o silêncio predomina. Guilherme, 29, Noelia, 26, e Isabela, 10, se reúnem ao redor de uma pequena mesa – com uma Bíblia, uma vela, um porta-retrato com o desenho de uma criança sendo batizada, uma gravura de Jesus Cristo, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e uma ‘plantinha’ –, molham as pontas dos dedos e fazem o sinal da cruz, orientados pela catequista.

Todos os sábados, às 15h30, os três catequizandos com deficiência intelectual, em níveis diferentes, participam dos encontros da Catequese Inclusiva na Paróquia São Sebastião, na Vila Guilherme, conduzidos pelas catequistas Márcia Valéria Wissinievski Souza, 60, e Silvana Lucia Nunes Aidar, 62.

Há mais de 40 anos, existe na Paróquia um núcleo do Movimento Fé e Luz, que atua para incluir as pessoas com deficiência intelectual na Igreja e na sociedade. Essa inclusão também envolve assegurar-lhes os sacramentos da Iniciação à Vida Cristã. Em novembro, Noelia e Isabela receberão a primeira Comunhão, após dois anos de preparação. Em 2024, será a vez de Guilherme, que começou na Catequese neste ano.

CRIADOS E AMADOS POR DEUS

O encontro daquele sábado, 30 de setembro, era sobre a criação: tudo o que foi criado por Deus e as coisas que Ele deu ao ser humano inteligência para criar.

Pouco a pouco, com desenhos e recortes de jornais e revistas, os catequizandos montam um cartaz com as criações humana e divina, em meio a breves explicações da catequista Márcia. “E ali na mesa de oração, o que Deus criou?”, ela pergunta. Isabela responde: “a plantinha”, e a leva para perto dos colegas. Cada um dos catequizandos, então, ganha um vasinho para decorar com papel colorido, no qual será colocada a plantinha, unindo, assim, a criação de Deus com o vasinho ornamentado com as próprias mãos.

“Temos a preocupação de não intelectualizar demais o encontro, para que eles consigam entender. E sempre tentamos fazer uma vivência, mostrando as coisas e propondo que façam algo concreto”, explicou Márcia ao O SÃO PAULO. Ela também criou alguns jogos para facilitar a compreensão dos conteúdos e se vale livros ilustrados durante os encontros, que têm duração de 40 minutos.

Mas será que os três catequizandos entendem o sentido de estar ali? Reconhecem a Cristo? “Quem é que Jesus ama?”, pergunta Márcia. “Eu!”, responde Guilherme, enquanto Noelia balança a cabeça afirmativamente e Isabela sorri.

“Nossa primeira preocupação é mostrar para as crianças que Jesus é o nosso amigo, e que como um grande amigo Ele nunca vai nos deixar sozinhos. Depois, apresentamos o Deus que é Pai, e todos os demais conteúdos da Catequese”, prossegue Márcia.

A catequista assegura que depois de concluir a Catequese, muitos continuam a ir às missas e têm a devida reverência ao receber a Eucaristia: “Nós não temos o poder de saber da fé de cada pessoa, mas muitos são os sinais de que eles entendem a manifestação de Deus”.

ACOLHIDA FRATERNA

Quando alguém é inscrito na Catequese Inclusiva, seu diagnóstico clínico só é perguntando à família posteriormente, se necessário. “Se for uma criança com o Transtorno do Espectro Autista, por exemplo, não será ideal fazer nos encontros algo que envolva muito barulho. Por isso, essa informação é importante”, detalha Márcia.

O Padre Luiz Cláudio Vieira, Pároco, tem intensificado a divulgação da Catequese Inclusiva. “O mais importante é acolher quem chega. Toda pessoa tem direito de conhecer a Jesus, amá-Lo e viver a fé”, ressalta. “Futuramente, temos a perspectiva de que não exista somente uma sala para a Catequese Inclusiva. Todas as turmas serão inclusivas, mas para isso precisaríamos de mais catequistas preparadas”, explica.

Em 2017, durante o Congresso Catequese e Pessoas com Deficiência, no Vaticano, o Papa Francisco ressaltou que a Catequese deve buscar meios para que cada pessoa, mesmo que com graves limites e deficiências, “possa encontrar Jesus no seu caminho e abandonar-se a Ele com fé. Nenhum limite físico ou psíquico jamais poderá ser um impedimento para este encontro, porque a face de Cristo resplandece no íntimo de cada pessoa”.

Quando chegou a São Paulo há 16 anos, a peruana Flor de María Rasmussen Rivera, mãe de Noelia, vivenciou como é não ser bem acolhida. Na primeira vez que foi com a filha à missa em uma paróquia perto de sua casa, na zona Leste, o comportamento agitado da menina levou a reprimendas de um sacerdote. Depois, ela não conseguiu inscrever Noelia no grupo de Catequese.

Como já participava do Movimento Fé e Luz em seu país, ela buscou um grupo no Brasil e encontrou na Paróquia São Sebastião a devida acolhida e uma turma de Catequese para Noelia. “Aqui minha filha sempre foi bem recebida. Ela gosta de abraçar e de beijar as pessoas. Elas ficam felizes e retribuem este carinho”, assegura.

No encontro de Catequese daquele sábado, Flor de María esteve ao lado da filha, reforçando os conceitos que eram apresentados pela catequista Márcia.

“Hoje, quando chegarmos a nossa casa, vou lembrá-la de que Deus criou as plantas, as flores, e que nós temos o dever de cuidar da plantinha para que floresça e continue crescendo”, disse a mãe, enquanto as duas se encaminhavam para participar da missa das 17h na Paróquia.

O QUE JÁ DISSERAM OS PAPAS

“As crianças e os jovens deficientes físicos ou mentais] têm direito, como quaisquer outros da sua idade, a conhecer o ‘mistério da fé’. As dificuldades que eles encontram, por serem maiores, tornam também mais meritórios os seus esforços e os dos seus educadores”.

São João Paulo II – exortação apostólica Cathechesi Tradendae (CT 41), em 1979

“Seja garantida também a comunhão eucarística, na medida do possível, aos deficientes mentais, batizados e crismados: eles recebem a Eucaristia na fé também da família ou da comunidade que os acompanha” .

Papa Bento XVI – exortação apostólica Sacramentum Caritatis (SC 48), em 2007

“Reafirmo veementemente o direito de as pessoas com deficiência receberem os sacramentos como todos os outros membros da Igreja. […] Deve ser reservada uma atenção especial às pessoas com deficiência que ainda não receberam os sacramentos da iniciação cristã: poderiam ser acolhidas e inseridas no percurso catequético de preparação para estes sacramentos. A graça, de que estes são portadores, não pode ser impedida a ninguém.

Papa Francisco – mensagem no Dia Internacional das Pessoas com Deficiência em 2020

Fonte: https://osaopaulo.org.br/

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