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A Partilha do Pão da Vida

A “multiplicação dos pães e dos peixes” (Jo 6,1-15) é um milagre contado por todos os evangelistas. Em Marcos e Lucas aparece duas vezes, de maneira que temos seis edições. Portanto, trata-se de um evento que causou muito impacto e afetou muitas pessoas. As narrações são semelhantes entre si, mas têm algumas diferenças que não questionam a autenticidade do fato. Elas nos ajudam a entender que o relato dos evangelistas não deve ser tomado como uma página de crônica, mas como um texto de teologia. Ainda uma vez estamos diante de um fato que funciona como uma parábola que nos revela os mistérios de Deus. A multidão reconhece no gesto de Jesus algo de extraordinário, mas não consegue compreender o seu significado.

Jesus, como sempre, parte da vida do dia a dia para nos ensinar as coisas de Deus e os segredos da Vida. Ele conta os sonhos do Pai com linguagem simples e usando exemplos comuns. Inspira-se na natureza porque, como diz o Salmo 18, “os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a sua obra”. Neste caso, ele parte do pão que alimenta a vida biológica para nos falar do Pão da Vida Eterna. Usa a imagem de um banquete acessível a tod@s para descrever o Reino de Deus que ele veio inaugurar.

O ponto de partida é a fome do povo. Jesus deixa bem claro que o povo deve ser alimentado. É inadmissível que haja pessoas que morram de fome. Todos/as devem ter acesso aos bens necessários para viver com dignidade. Quem deve garantir isso? Nós gostaríamos que fosse Ele fazendo chover maná do céu ou multiplicando os pães, mas Ele passa a responsabilidade para nós. Em vez de realizar o milagre, ensina a fazer o milagre. Basta imitar o gesto profético daquele menino que coloca à disposição tudo o que tem. Ele representa a comunidade daqueles/as que se fazem pequenos/as para entrarem no Reino de Deus.

Jesus alimenta toda aquela multidão porque Seus discípulos, assimilando o espírito de serviço e de caridade da Eucaristia, sentem compaixão e respondem com a partilha. A responsabilidade de garantir pão em todas as mesas é da comunidade cristã. É difícil e até contraditório falar de pão da vida eterna para aqueles que morrem prematuramente por falta de pão.

A fome no mundo, causada não por falta de alimentos, mas pela voracidade de uma pequena parte da humanidade, é sinal de que não levamos a sério a Eucaristia. “A Eucaristia – diz o Papa Francisco – extingue em nós a fome das coisas e acende o desejo de servir. Ele nos levanta de nosso confortável estilo de vida sedentário, nos lembra que não somos apenas bocas para alimentar, mas também somos suas mãos para alimentar os outros. É urgente agora cuidar daqueles que têm fome de comida e dignidade, daqueles que não trabalham e lutam para seguir em frente.

E fazê-lo de modo concreto, como concreto é o Pão que Jesus nos dá. Precisamos de uma verdadeira proximidade, precisamos de verdadeiras correntes de solidariedade. Jesus eucarístico faz-se próximo de nós: não deixemos sozinhos aqueles que estão próximos de nós!”

Mas isso não basta. O ser humano não vive só de pão material, mas também de beleza, verdade, dignidade, afetividade, alegria… Deus colocou em cada um/a de nós o desejo de plenitude, a fome de completude que continuamente nos devora e que só a vida que brota d’Ele pode satisfazer. “Fizeste-nos, Senhor, para ti- dizia Sant’ Agostinho -, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. Nunca estamos prontos/as. “Nunca devemos sentir que chegamos, nunca podemos achar que já alcançamos a nossa realização. Devemos sempre sentir dentro de nós o desejo do ‘quero ser mais’ que Deus colocou em nossos corações” (Pe. Ciotti). “O espírito é o vento que não deixa o pó dormir” (pe. Turoldo).

Somos insaciáveis de felicidade. Sempre a caminho em busca da realização. Não tem nada de mal nisso. Pelo contrário, essa fome de ser mais faz parte de nossa essência humana. Não fomos feitos para andar cabisbaixo, nos arrastando na mediocridade ou pior atolando na lama da baixaria. Somos feitos para andar de cabeça erguida, para voar cada vez mais alto e navegar para águas profundas. O risco é alimentar essa fome de plenitude de maneira errada, através da busca obsessiva de sucesso, dinheiro, prestígio, aprovação, gratificação e todos os outros investimentos que, apesar da aparente satisfação, deixam um vazio no estômago do coração. Enchem a barriga, mas não alimentam.

Pior ainda é quando nos deixamos seduzir pelas imitações falsificadas da felicidade compradas a caro preço no mercado das ilusões. Renunciamos à felicidade entregando-nos a prazeres efêmeros que não têm consistência e duram tanto quanto os fogos de artifício. É justo desfrutar das legítimas alegrias que a vida nos oferece: afetos, amizades, sucessos profissionais, festas, comemorações… sabendo, porém, que a nossa plenitude só é alcançável assimilando a Vida de Jesus e vivendo a sua paixão pelo Reino de Deus. Ele é o Pão da Vida Eterna que, não é uma vida feita de coisas extraordinárias, mas que se faz dom de si, partilha e serviço. É isso que faz feliz a nossa vida. Jesus viveu tudo isso. Portanto, dando-nos a si mesmo, nos dá tudo o que precisamos para sentirmos desde já o gosto da Vida do Eterno.

(Pe. Xavier Paolillo, missionário comboniano)

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