ColaboradoresPe. Ernesto

Naquela noite santa

Na primeira biografia de São Francisco de Assis, redigida quase de jato, durante o ano de 1228, por frei Tommaso da Celano, pouco mais de um ano após a morte do Santo, o frade-biógrafo realça a fisionomia espiritual do “Poverello” de Assis com estas rápidas pinceladas: “a aspiração mais alta, o desejo mais ardente, a vontade mais firme de Francisco era de observar perfeitamente e sempre o Santo Evangelho e imitar fielmente os exemplos de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Na meditação contínua sobre as palavras e as obras de Jesus Cristo, Francisco levava a serio a dimensão humana do Filho de Deus, sobretudo era tocado profundamente pela humildade da Encarnação: seu nascimento numa estrebaria e sua obediência até a morte e morte de cruz. Uma ilustração deste sentimento, “digna de perene memória”, – escreve frei Tommaso – está no episódio, acontecido em Greccio, na noite de Natal, “três anos antes da morte do Santo”, em 1223.

Duas semanas antes da Natividade do Senhor, Francisco havia convocado o amigo querido Giovanni e lhe disse: “Se queres celebrar em Greccio o Natal do Senhor, vai à minha frente e prepara o que te digo. Gostaria de representar o Menino, nascido em Belém, e, de certo modo, ver com os olhos do corpo o desconforto em que ele se encontrou por falta das coisas necessárias a um recém-nascido; como o reclinaram numa manjedoura e como jazia em cima da palha entre o boi e o jumentinho”.

O amigo Giovanni corre e prepara tudo, conforme o desejo do frei Francisco. E, eis a maravilha das maravilhas: “muitos frades de várias partes acorreram; chegaram também homens e mulheres da redondeza, com ar de festa, carregando, cada um segundo suas posses, velas e tochas para iluminar aquela noite, em que se acendeu no céu a Estrela, que devia iluminar os dias dos tempos e da história humana e ser fermento de uma nova humanidade”.

Por fim, chegou Francisco. Vendo que tudo estava arrumado conforme seu desejo, ficou radiante de alegria: a manjedoura e a palha no seu lugar, como também o boi e o burrico e uma criança no colo da mãe, com o esposo ao lado dela.

“Naquela cena comovente – sublinha Tommaso da Celano – resplendia a simplicidade evangélica, louvava-se a pobreza voluntária, era ressaltada a virgindade consagrada e recomendava-se a humildade sincera”. Greccio, assim, se tornou a nova Belém. Naquela noite, clara como o pleno dia, suave para os homens e os animais, o povo acorreu jubiloso com um gozo antes jamais saboreado:

“O Verbo se fez carne e habitou no meio de nós; de sua plenitude todos nós recebemos graças sobre graças” (Jo 1,14-16). Enquanto a floresta ressoava de vozes e os rochedos imponentes ecoavam coros festivos, os frades cantavam cânticos escolhidos para adorar o Senhor, que tinha nascido.

A noite parecia toda uma vibração de alegria. Francisco estático, diante do presépio, vibrava de compunção e de gozo inefável; veio, também, o sacerdote para celebrar solenemente a Eucaristia e, perante aquele presépio vivo, ele próprio degustou uma consolação, que jamais tinha experimentado antes. “Francisco revestiu-se dos paramentos diaconais – pois era diácono – e cantou com voz sonora o Evangelho lucano da natividade do Senhor.

Aquela voz, forte e suave, límpida e sonora, arrebatou em todos os desejos do céu. Depois falou ao povo e com palavras dulcíssimas, reevocou o recém-nascido Rei, pobre e obediente, manso e humilde. Muitas vezes, querendo referir-se a Jesus Cristo, abrasado de amor celeste, o chamava Menino de Belém”.

Na descrição de um simples e desprendioso frade medieval, temos assim a crônica fiel do primeiro presépio vivo, acontecido na história cristã, presépio imaginado e preparado por São Francisco. A ingênua e tosca representação, segundo o biógrafo, encheu o coração do “pobrezinho” de profunda emoção religiosa.

Diante do seu presépio, Francisco chorou de paz e alegria, enquanto mergulhava na meditação de um Deus, que quis assumir a natureza e a condição humana no seio virginal de uma jovem de Israel; sem privar-se de sua glória divina “se esvaziou para tornar-se perfeito homem – escreve o Apóstolo Paulo (Fl 2,6-8); revestindo-se em tudo da condição de escravo, se fez semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4,15).

Francisco quis, assim, se unir aos pastores e aos magos, a Simeão e Ana, que estavam no Templo, para adorar o Menino, tiritante de frio, mal coberto por uns trapos, vagindo e chorando sobre palhas numa manjedoura, e reconhecer, naquela criança recém-nascida, o próprio Filho do Altíssimo, o Rei Imortal, o Emmanuel, o Deus-conosco, o ponto de convergência de todos os corações.

Eis o mistério do Natal, o maior mistério da nossa fé, mistério que é coexistência de realidades contrastantes, aparentemente e humanamente inconciliáveis. Que a humanidade inteira, o micro e o macrocosmo, toda a criação, as galáxias e os oceanos, como também os anjos do céu, os santos e todos os seres humanos tementes a Deus, à semelhança de Francisco, se prostrem diante desta criança indefesa, pequena e pobre, deitada na palha e digam em alto e bom som:

“Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 21,28). O mistério do Natal, como o viu profeticamente Francisco, naquela noite, no Presépio de Greccio, consiste nisto: fusão perfeita entre “a humildade da Encarnação” e a “Glória do Deus, feito Homem”. Desejando a você, querido leitor, colocar no centro deste Natal o Divino Infante, peço ao Menino Jesus dar-lhe aquela paz e alegria, que experimentou São Francisco de Assis naquela noite santa, ao contemplar o Deus-humanado no regaço de Maria e que o presépio, escola das mais altas virtudes humanas e cristãs, inspire nossos pensamentos e ações. Às famílias enlutadas pelo grave acidente rodoviário, mais uma vez quero expressar, em meu nome e da comunidade de São José, os meus pêsames mais sinceros e a minha oração mais fraterna.

Padre Ernesto
p.ernestoae@gmail.com

Paróquia São José – SAD – GO

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