Olhando para o quadro de reflexões aqui esboçado, pode-se ter a sensação de um mundo que desmorona. É o que Bento XVI lamenta quando fala de ditadura do relativismo. Impõe-se uma cultura na qual tudo é verdadeiro — o que equivale a dizer que nada o é. Outra preocupação do papa, em face desse fenômeno, é com a “racionalidade” da fé, tema frequente em suas conferências, sobretudo quando em seu meio, o intelectual. Preocupa-o o relativismo e a sua outra face: o fundamentalismo.
Talvez isso explique sua relação amigável com os Estados Unidos e sua atitude simpática para com o povo americano. Vê-o como um povo religioso. Mas é exatamente aqui que está o problema. William Herberg, citado atrás, diz que o americano crê no crer. O autor advoga o direito absoluto de cada um crer nesse direito fundador de outros quaisquer direitos. Ora, a crise que atravessamos não atinge esse fundamento.
Nas palavras de Michel de Certau, o que temos não é uma “crise do crer”, mas uma crise do conteúdo do crer. Patrick Michel comenta essa distinção, citando o depoimento de um visitante do museu das religiões em Glasgow: “a multiplicação de viagens e a comunicação levam as pessoas a serem conscientes como nunca o foram antes da amplidão do universo cultural e dos sistemas de crença existentes. A consciência dessa diversidade pode tornar difícil a escolha do que se decide tomar por verdadeiro”. Isso significa que todas as tentativas para reconstruir certezas referenciais aparecem, de imediato, “desqualificadas, sem plausibilidade”.[15]
Nas suas reflexões mais recentes, o cardeal Martini, em outras palavras, faz sentir o “drama” representado por essa “impossibilidade” de um conteúdo referencial, a não ser por um gesto de fé, entendida como ato de confiança, de entrega: “Que Deus exista pode ser admitido, definitivamente, somente na base de uma confiança que afunda as suas raízes na própria realidade”, diz o cardeal, citando Hans Küng. E completa que pode ser verdadeira até aquela do ateu “que grita e sussurra cada dia as suas dificuldades de crer”.
Chegando ao “limite do limite” humano — a doença e a morte, tão banalizadas até mesmo pela religião —, pondera: “quem se acha nessa situação deveria antes sentir-se liberado do uso das palavras, e isso é, para mim, um problema não resolvido: como descrever uma realidade toda negativa com palavras racionais que, todavia, enquanto racionais, devem exprimir uma experiência positiva?” Guido Vecchi comenta: “Martini não ama os discursos facilmente consoladores; como sempre, acha o modo de falar ‘ao crente e ao infiel que há em cada um de nós’ e vê no rosto ‘o duro caminho’”[16]. Em fenômenos-limite, a linguagem, religiosa ou não, manifesta seus limites.