21.6 C
Ceilândia
Religião, crises e transformações
CBs

Religião, crises e transformações

87 / 100

A primeira coisa a observar é que dados estatísticos, embora fundamentais, nada dizem se forem tomados, por si mesmos, como expressão do que ocorre no campo religioso. Peter Berger, analisando a secularização, dizia que ela ocorria no conjunto das relações sociais e era acompanhada por uma secularização da consciência religiosa.

Mesmo que hoje ele renegue sua posição sobre a secularização como processo inevitável e afirme a permanência e mesmo o crescimento e intensificação das adesões religiosas, sua teoria chamava a atenção para uma espécie de deslocamento: de realidade objetiva, que se expressava em pertença explícita e quantificável, a religião situa-se, cada vez mais, no campo da subjetividade.

Uma subjetividade livre, aberta e plural. Entendida dessa forma, a secularização da consciência é um fato. Se isso provoca descrença e atitude de liberdade com relação às instituições, há também o seu reforço, graças à densificação institucional. Intensifica-se o “sentimento” de pertença e a necessidade de defender um campo ameaçado. Aquilo que, em linguagem comum, se chama de fervor.

Quando se olha o Censo 2000 do IBGE, o que mais chama a atenção é a quantidade dos que se declaram sem religião: 7,3% (12,3 milhões) da população brasileira, indicando um aumento de 3,5 pontos percentuais em relação ao censo anterior. Em dez anos, constitui um crescimento considerável. Em segundo lugar, constata-se a queda das religiões afro-brasileiras. Embora percentualmente não seja tão significativa — de 0,4% para 0,3% da população —, as expectativas de crescimento, apontadas em estudos realizados nos anos 1970, indicavam, pelo menos, uma estabilização.

O crescimento dos evangélicos — de 9,05%, em 1991, para 15,45%, em 2000 — foi menos surpreendente, uma vez que acompanha o processo de urbanização brasileiro. Menos surpreendente ainda é a diminuição da porcentagem de católicos (de 83,8% para 73,8%), pois a pluralização sempre traz prejuízo à religião dominante, sobretudo quando esta tem características de (quase) monopólio. A adesão a novos grupos faz-se à custa da evasão de membros da religião que, em grau maior ou menor, detém o monopólio.

A respeito desses 12,3 milhões sem religião, pode-se afirmar, com certa segurança, que muitos pertencem ao grupo dos religiosos sem religião. Representariam a tendência, bastante frequente em estudos dos anos 1980, que preconizava a substituição de religião por religiosidade. Tal tendência inspirava-se na expressão believing without belonging — crer sem pertencer.

No caso brasileiro, mormente entre os jovens, seria a busca de experiências que não se encontram nas grandes instituições, em ritos e expressões, e mesmo de incorporação de mitos da mídia em figuras religiosas: Jesus como extraterrestre, por exemplo. Ademais, no Brasil é comum associar religião a prática religiosa regular.

Como a prática é minoritária, muitos não se definem como religiosos, embora tenham sido batizados. Isso para dizer que as interpretações dos números conferem um matiz diferente aos dados tomados em estado bruto. Mas também o contrário acontece e de forma cada vez mais frequente: por exemplo, buscar o rito religioso, como a bênção de alianças matrimoniais, mesmo sem ser batizado ou ter vínculos de pertença.

O que realmente surpreendeu os pesquisadores, entretanto, foi o número de grupos religiosos relacionados quando se respondeu ao item do questionário: “Qual a sua religião?” Foram dadas 35 mil respostas diferentes. Um trabalho paciente de análise e classificação logrou “enxugá-las” para 500 e, depurando-as mais ainda, elaborou uma tipologia de 144 grupos religiosos diferentes. Menos surpreendente que o número é o fato de que ele traduz um deslocamento básico: a religião migra para o universo subjetivo.

Com efeito, na passagem do século, o sociólogo alemão Georg Simmel observava uma separação crescente entre religião e vida. No homem religioso, a vida em si mesma é informada pela religião. Não se trata de apenas um dogma ou de uma prática dominical. Mas, na concepção daquele estudioso, ela estava se tornando na subjetividade humana um fato entre outros, sem implicar a totalidade do existir.

Num ensaio sobre a arte, ele dizia que as pessoas já não estão num mundo religioso objetivo; são subjetivamente religiosas num mundo objetivamente indiferente. A seu ver, a religião era a amostra da experiência mais significativa da modernidade: o descolamento da objetividade cultural e social para a subjetividade individual.

3. Além dos números

Postagens relacionadas

Todo aquele que odeia seu irmão é homicida

Eraldo

A profecia está a serviço de quem?

Eraldo

Mestre, que eu veja!

Eraldo
Carregando....

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você esteja de acordo com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceitar Leia mais

Politica de privacidade & Cookies