Como assim “Ele está no meio de nós”?

Como assim “Ele está no meio de nós”?

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O Senhor esteja convosco! Com essa frase, muitas vezes durante a Liturgia o padre faz uma devota saudação aos fiéis. Mais que uma saudação, exprime ao mesmo tempo um desejo, uma benção

e um alerta. A resposta dos fiéis sempre foi: “Et cum Spiritu Tuo“, que quer dizer “E com o teu Espírito“. Bem diferente do “ele está no meio de nós”, que ouvimos nas nossas liturgias, hein? Vamos já entender isso tudo.


Origem da saudação
A frase “O Senhor esteja convosco!” tem sua origem provavelmente nas próprias Sagradas Escrituras. No livro de Rute, vemos a expressão como saudação entre Booz e os seus empregados:
Booz acabava de voltar de Belém, e disse aos segadores: O Senhor esteja convosco! Ao que eles responderam “O senhor te abençoe!“. (Rute 2, 4)

Vemos similar uso da expressão em II Crônicas 15,2. Em particular, no Evangelho de S. Mateus, Nosso Senhor diz: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo“. Certamente, a Igreja viu nessa promessa de Nosso Senhor uma grande força e na viu na Liturgia, na Missa, a sua realização plena.
O uso litúrgico desta expressão provavelmente data dos tempos apostólicos. Podemos facilmente imaginar os Santos Apóstolos saudando de semelhante maneira os primeiros católicos. Vemos seu uso, por exemplo, na Anáfora de Santo Hipólito (Séc. II). Aparece também na Divina Liturgia de S. João Crisóstomo, datado do século IV, evocando esta saudação como uma saudação “de venerável tradição”, reforçando o seu uso apostólico.


Significado da saudação
Esta expressão, embora simples, possui riquíssimo significado. Expressa o mais alto e santo dos desejos: A presença do Senhor. Tem três significados:

Desejo

O sacerdote ao dizer “O Senhor esteja convosco!” deseja aos fiéis que eles estejam na presença de Deus, em sua graça (Isto é, em estado de Graça, sem pecado mortal, sendo, portanto, dignos do Céu). Deseja também que Deus esteja com eles, e os ajude a rezar em Espírito e Verdade, pois é necessária uma graça especial para podermos rezar dignamente.

Benção

Em virtude do seu poder sacerdotal, a expressão também designa uma benção. Assim como o “Deus te abençoe” de um sacerdote é, em si, uma benção e o “Deus te abençoe” de qualquer outra pessoa é apenas um pio desejo.

Chamado

Em particular na Liturgia Tradicional, mas ainda no Rito Novo, a expressão é usada também para chamar a atenção dos fiéis para momentos que precisavam de uma atenção maior. Por exemplo: Coleta, Evangelho, Prefácio, etc
No Rito Tradicional, quando o sacerdote, antes da Oração Coleta, ia saudar o povo com o "Dominus Vobiscum", ele osculava o altar, símbolo de Cristo, virava-se aos fiéis e abria os braços, como que num gesto de acolhimento que recebe de Cristo toda a sua eficácia.
No Rito Tradicional, quando o sacerdote, antes da Oração Coleta, ia saudar o povo com o “Dominus Vobiscum”, ele osculava o altar, como que recebendo a “Paz do Senhor”, virava-se aos fiéis e abria os braços, como que num gesto de distribuição desta paz, que recebe de Cristo toda a sua eficácia.

A resposta: E com o teu Espírito
Também vemos a resposta “E com o teu Espírito” em vários trechos das Escrituras. Em particular, 2 epístola de S. Paulo aos Timóteos, Gálatas 6, Filipenses 4, etc. Pelo menos desde o século II vemos esta resposta, que significa o desejo do povo de que o sacerdote também receba a mesma graça para bem rezar a Missa, para que Deus esteja com o seu espírito – isto é, o espírito sacerdotal que ele recebeu em sua ordenação. O “E com o teu Espírito”, portanto, expressa de maneira excelente a união de oração entre os fiéis e o sacerdote, e a hierarquia nesta celebração, pois o povo se une a ele, e não o contrário.

A burlesca resposta “Ele está no meio de nós”
Como vimos, existe um grande significado no diálogo “O Senhor esteja convosco, e com o teu Espírito“. Os fiéis de língua portuguesa infelizmente não vivem esta profundidade. Fomos privados disso. A tradução do Missal para o português é cheio de controvérsias e erros. Vamos trazer todos os erros de tradução num artigo futuro. A lista é bem grande, o que indica que não foi um simples descuido, mas algo feito com uma intenção, e esta intenção é exatamente mudar a fé, pois “Lex Orandi, lex credendi“, isto é, a “Lei da Oração é a lei da Fé“. Mudando-se a oração, muda-se a Fé.
Não queremos aqui julgar a memória nem as intenções dos bispos responsáveis por essa tradução absurda, mas vamos apontar os fatos que rodeiam esta resposta e o por quê de ela ser enganadora, e até mesmo herética. No estudo da CNBB no. 87, reproduz-se uma frase dita pelo responsável pela tradução:
Apresentei em Roma, e a Congregação para o Culto Divino aprovou nossa versão. Nossa sorte é que no momento não havia na Congregação perito em língua portuguesa. Desta forma obtivemos aprovação da simplificação do Cânon Romano, que tinha sido apresentada pelos franceses e negada… Nós simplesmente havíamos copiado a proposta francesa.
Esta frase foi dita em tom de ironia e vanglória, mas, na realidade, é muito triste: A tradução brasileira foi copiada de uma proposta francesa que foi rejeitada. E, segundo as palavras do bispo, “nossa sorte é que no momento não havia perito em língua portuguesa”. O bispo confessa que enganou a Igreja, fazendo-a aprovar uma tradução ruim, e ainda considera isto uma sorte. Algo realmente lamentável.

Os erros da expressão “Ele está no meio de nós”

Pode-se argumentar que não há erro algum na frase, pois o Senhor mesmo disse: “Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. (Mt 18,20)“. É verdade que o Senhor disse que estaria em nosso meio quando nos uníssemos para rezar, mas fora do contexto bíblico e dentro do contexto litúrgico desta saudação, o uso dessa frase é um absurdo.
Existem vários erros ocultos nessa resposta dentro da Missa. Talvez os bispos brasileiros tenham tido boa vontade, mas a verdade é que a tradução francesa, que foi rejeitada e traduzida para o português por eles, era herética e revolucionária, ocultando doutrinas contrárias à Fé, em particular dois temas: O sacerdócio e a presença de Deus.

A falta de sentido da resposta

Um professor católico muito famoso brincava que o diálogo “O Senhor esteja convosco! Ele está no meio de nós” parece uma conversa de “velhas surdas”, que não se entendem e cujo diálogo não tem o menor sentido. Isso é bem verdade. Como vimos acima, a expressão “O Senhor esteja convosco” é, ao mesmo tempo, um desejo que Deus esteja presente na alma através da Graça Santificante, uma benção e um chamado de atenção. Perguntamos, então: Que sentido tem responder com “Ele está no meio de nós“? É uma resposta sem sentido, até mesmo arrogante e grosseira. Como se no povo já existisse a “presença de Deus”, a “graça santificante” acima mencionada. O que é contrário à Fé.
Algo similar acontece com o diálogo "A Paz do Senhor esteja sempre convosco!" e a resposta "O Amor de Cristo nos uniu".
Talvez a velha da praça tenha ajudado a comissão brasileira de tradução do missal? É uma hipótese que não pode ser descartada. Melhor isso que aderir às heresias que essa tradução teve na França!

O sacerdócio

Quem celebra a Missa? A assembléia, o sacerdote ou ambos? A resposta: O sacerdote. E a assembléia se une a ele, não “concelebrando”, mas assistindo a liturgia com piedade e devoção, e participando das partes que cabem a ela, como as respostas, as músicas, sobretudo a Sagrada Comunhão.

A primeira heresia por trás da fórmula “Ele está no meio de nós” é negar isto, e dizer que o celebrante é, na verdade, o povo, e o sacerdote é apenas um “presidente da assembléia”, que “guia a assembléia na Missa”. Isso é falso. O sacerdote é o verdadeiro celebrante porque é ele que oferece o Sacrifício da Missa, e a assembléia se une a ele nesse sacrifício. Essa heresia de que quem celebra é, na verdade, o povo está intimamente unida às heresias protestantes a respeito do Sacramento da Ordem a esta outra:

A presença de Deus

Um rabino marxista cabalista chamado Martin Buber escreveu em 1923 um livro chamado “Tu e Eu”. Este livro trata da “Filosofia do diálogo“. Essa filosofia prega que o diálogo gera a existência. Entre duas pessoas que conversam e rezam é gerado um ser que não é nem um, nem outro, mas o próprio Deus. Essa doutrina prega, portanto, a grande heresia que Deus é “criado” pela “comunhão das pessoas”, pelo encontro e pelo diálogo. O que é um absurdo!
Dentro da Liturgia, essa presença se daria, portanto, entre o padre e o povo. Por isso, esses teólogos defendiam tanto que o padre celebrasse a Missa de costas para o sacrário e de frente para o povo: Desta maneira, teria-se a presença de Deus visivelmente “no meio” do povo, entre o padre e o povo se geraria a Shekiná, a presença de Deus. Isso é uma grande heresia: Segundo estes, Deus na Missa está não na hóstia consagrada, não no sacrário, não no sacrifício, mas na união do povo e do padre. Por isso mesmo esses “teólogos” jamais compreenderão a Missa Privada, dita pelo sacerdote sozinho. Pois ao passo que não entendem o significado da Missa, não entendem também seus efeitos.

Deve-se substituir o “Ele está no meio de nós” por “E com o teu espírito” na Missa?

Não. Infelizmente, não. Na liturgia, deve-se rezar o texto aprovado, e a resposta aprovada é essa. Portanto, não podemos substituir o “Ele está no meio de nós” pelo “E com o teu Espírito”, pois assim estaríamos desobedecendo a Lei Litúrgica que nos manda obedecer o texto aprovado. E devemos obedecer, mesmo se os que o fizeram desobedeceram, a obediência e a humildade é muito agradável a Deus.
Tudo o que podemos fazer é rezar para que a bendita tradução da terceira edição do Missal saia logo, e saia com esta tradução corrigida – o que, por ora, consideramos improvável que aconteça, infelizmente.
Uma possibilidade para quem é incapaz de responder “Ele está no meio de nós” é responder em latim: “Et cum Spiritu tuo”. Nada impede. Mas se for feito, faça-se discretamente, em voz submissa, para não correr o risco de os outros perceberem, chamando assim a atenção para si. Defendamos a verdade, mas cuidado com a vaidade!